Resenha: Will & Will - Um nome, Um destino - John Green e David Levithan - @galerarecord

sábado, 27 de julho de 2013

Will & Will
Um Nome, Um Destino
Autor: John Green & David Levithan
Editora: Galera Record (Brasil) / Dutton Juvenile (EUA)
Ano: 2013
Nº págs: 352
Gênero: Romance
Editora: Galera 
Sinopse: Em uma noite fria, numa improvável esquina de Chicago, Will Grayson encontra... Will Grayson. Os dois adolescentes dividem o mesmo nome. E, aparentemente, apenas isso os une. Mas mesmo circulando em ambientes completamente diferentes, os dois estão prestes a embarcar em um aventura de épicas proporções. O mais fabuloso musical a jamais ser apresentado nos palcos politicamente corretos do ensino médio.



 

John Green (conhecido no Brasil pelos livros, “A Culpa é das Estrelas”/ “The Fault in Our Stars”, “Quem é você Alasca?” e “O Teorema Katherine”) e David Levithan (que publicou “Boys meets Boys” e  ”Two Boys Kissing”) se uniram para contar duas histórias de adolescentes que têm o mesmo nome, que em um momento se encontram e o que resultou deste encontro, neste YA - Young Adults – livros para faixa dos 15 aos 29 anos.
Se os dois personagens se chamam Will, como diferenciar? Aqui, para definir de qual Will estarei me referindo, vou usar Will 1 e Will 2de acordo com a ordem que aparecem na narrativa. Cada Will tem uma personalidade bem marcante e as narrativas vão ocorrendo em paralelo, os capítulos impares são do Will 1, escrito por Green, e os pares do Will 2, escrito por Levithan, num total de 20 capítulos. Nos capítulos do Will 2tudo é em letras minúsculas, o que no início incomoda um pouco, mas além de vincular a narrativa ao personagem, ilustra a forma como o personagem se vê.

“– Quem é você?Eu me levanto e respondo.–Hã, eu sou Will Grayson.– W-I-L-L G-R-A-Y-S-O-N? – pergunta soletrando impossivelmente rápido.– Hã, sim – digo – Por que a pergunta?O garoto me olha por um segundo, a cabeça inclinada como se pensasse que eu poderia estar passando um trote nele. Então finalmente diz:– Porque eu também sou Will Grayson.– Tá de sacanagem? – pergunto.– Não – diz o cara.”

Green e Levithan dão vida aos seus Will e seus mundos em histórias que poderiam continuar paralelas. Todos sabem que existe uma pessoa com o nome igual ao nosso, basta jogar o nome no Google, mas alguém já pensou em encontrar alguém que tenha o mesmo nome? Cada Will vive do seu jeito, mas eles tem algo em comum, de uma forma ou de outra, os dois se queixam de varias coisas que queriam que fosse de outra forma, podemos dizer que eles vivem a vida deles como muitas pessoas hoje em dia, indecisa na maioria dos aspectos. Porém o destino de uma forma interessantíssima e especial se trata de unir as vidas dos dois Will Grayson e como acontece na vida real, o destino prega peças e surpresas na vida dos dois adolescentes.
“No que diz respeito a vida, prefiro o silenciosamente desesperado ao radicalmente bipolar.” Will 1
Will 1 mora em Chigago com seus pais, heterossexual (ou, como ele se define, assexuado), quieto, tímido, indeciso e vive a sua vida sob duas regras muito simples: 1) não se importe muito com nada 2) cale a boca. Sem saber se gosta de uma garota da escola ou qual o sentido real de uma amizade verdadeira, ele tenta se manter afastado do mundo, como se ele pudesse não se importar com ninguém apenas por ter decidido não se importar. Para quem se esforça tanto para não se importar, ele importa-se até demais, e o calar só se restringe a boca porque dentro da sua cabeça é um tagarela irônico e sarcástico. Em algum momento ele abre a boca e começa a se importar, e é claro que é aí que tudo fica ainda melhor. Seu melhor amigo, e talvez único, é o gay, hilário e fabuloso Tiny Cooper, nome bem irônico levando em conta que ele é gigantesco.


"Estamos sempre tendo essa conversa. mas, se você continuar se concentrando no porquê de tudo ser tão difícil pra você, nunca vai perceber como poderia ter sido fácil." Tiny

Tiny é uma pessoa fora dos padrões normais, e não falo de seu tamanho, mas de sua personalidade. Egocêntrico, amigo leal, de bem com sua homossexualidade e que se apaixona a cada dia por um menino diferente, que nem sabem que ele existe, e tem desilusões amorosas diariamente.

A verdade pura e simples. Raramente é pura e nunca simples de fato. O que um garoto pode fazer quando mentira e verdade são ambas pecado” Tiny
“Nosso milagre é diferente porque as pessoas afirmam que é impossível. Como está dito em Levítico: ‘Homem não se deitará com homem. ’” (...) “Mas ali não diz que homem não deve se apaixonar por homem, porque isso é simplesmente impossível, certo? Os gays são animais, satisfazendo seus desejos animais. É impossível para os animais se apaixonarem. No entanto...” (...) “Eu me apaixono e me apaixono e me apaixono e me apaixono e me apaixono.” Tiny
Tiny está montando uma peça de teatro, em que, naturalmente, o assunto será ele próprio. Ele acha que Will 1 é incapaz de sentir o que chamamos de emoção, ao contrário dele que é definido pela emoção, emoção que às vezes beira o insuportável para o arrelacionamental Will 1e Tiny tem razão de reclamar que ele é irritantemente calado. Apesar das diferenças, ambos são amigos de longa data e ainda que Will 1 ache que a grande missão de Tiny seja acabar com sua vida social, esse gigante no tamanho e no coração acaba é contribuindo para aumentar seu círculo de amizade, que antes estava mais para uma reta. No fim ele é o ponto de convergência na vida dos dois Will. Lá no fundo, podemos perceber que a narrativa gira praticamente em torno dele e que ele é o responsável por muitas risadas do leitor. Posso até dizer que o livro não é sobre nenhum dos dois Will Grayson: ele é sobre Tiny Cooper e seus Will Grayson.

“Não digo bom-dia. Acredito que essa seja uma das expressões mais imbecis já inventadas. Afinal, você não tem a opção de dizer mau-dia ou horrível dia ou não-dou-a-mínima-pro-seu-dia. Todas as manhãs, espera-se que seja o início de um bom dia. Bem, eu não acredito nisso. Acredito contra isso.” Will 2
"vai ao encontro do que eu chamo de a regra da bosta do passarinho. sabe, quando as pessoas te dizem que é sinal de boa sorte quando um pássaro caga em você? e acreditam nisso! eu tenho vontade de sacudi-las e dizer: “cara, você não percebe que toda essa superstição foi criada porque ninguém pôde pensar em nada melhor pra dizer a alguém que tinha acabado de ser cagado?" Will 2

Will 2 tem medo de assumir sua homossexualidade, é depressivo (toma medicação tarja preta), confuso, sarcástico, com um humor bem ácido (mas que ainda rende boas risadas ao leitor). Vive só com sua mãe, pois foram abandonados por seu pai, o que lhe traz uma amargura cruel principalmente no seu relacionamento com a mãe e ele sabe que a magoa constantemente, mas acha que não pode fazer nada diferente, pois é assim que ele é.

“ela provavelmente só está preocupada com o dia em que vou acordar e perceber que metade dos meus genes são tão orientados pra ser um filho da puta que vou desejar ser um filho da puta. bem, mãe, adivinhe só? esse dia aconteceu há muito tempo, e eu gostaria de dizer que é aí que entram os comprimidos, embora eles lidem apenas com os efeitos colaterais.” Will 2

                Ele também odeia a amiga, Maura, uma gótica tão amarga quanto ele com quem mantêm uma relação bem deturpada e quase unilateral por parte dela. Odeia a escola, odeia a casa onde mora, odeia tudo. Só há uma coisa que impede Will de pular na beira do precipício: Isaac. Will 2 conheceu Isaac, de Ohio, em uma sala de bate-papo online e está apaixonado por ele. Não, ele ama Isaac. Ele vive por Isaac e acha que é recíproco. Eles nunca se encontraram, mas isso muda de figura quando Isaac simplesmente diz: "eu acho que está na hora". Will 2 não pensa duas vezes antes de concordar.

tenho a sensação de que minha vida está muito dispersa neste momento. como se fosse um monte de pedacinhos de papel e alguém ligasse o ventilador. mas falar com você me faz sentir como se o ventilador tivesse sido desligado por um tempo. como se as coisas pudessem de fato fazer algum sentido. você junta todos os meus pedacinhos, e sou muito grato por isso. Will 2

Will 2 viaja para conhecer Isaac. Chegando no local descobre que o encontro foi marcado em uma sex shop e quem ele conhece, ao invés de Isaac, é o outro Will Grayson, Will 1Will 1 está no local para dar alguma utilidade a uma identidade falsa que não serviu para o deixarem entrar no show em que Tiny está do outro lado da rua.
Quais são as chances de algo assim acontecer?
                Mas o inesperado os atinge e por causa do destino, acaso ou como quiserem chamar, os dois se encontram em um momento em que estão arrasados. O porquê acontece e como acontece são os diferenciais na vida desses personagens então. Will 1 ajuda Will 2, criando um tipo de conexão, mas na verdade esse é um dos poucos momentos em que os dois interagem. A história não é sobre o encontro dos dois, mas sobre o que resultou disso: é sobre amizade, amor e sobre encontrar a si mesmo. Ambos eram pedras que precisavam ser lapidadas, pessoas que precisavam olhar para si mesmas e se conhecerem. Mudanças que acontecem por meio de quem? De Tiny é claro, afinal ele pode não ser um dos narradores dessa história, mas é a estrela principal. Tiny, suas milhares de mensagens trocadas pelo celular e seu musical que promete ser o mais fabuloso e libertador de todas as produções escolares já feitas.

Opinião


                Uma história atual, bem humorada e tocante que fala de amizade e primeiros amores. No primeiro momento achei que o romance gay aconteceria entre os dois Wills. Esse pode ter sido um dos motivos de ter gostado do livro, pois já no começo nada foi óbvio. É contado em primeira pessoa, ora por Will Grayson hetero, ora por Will Grayson gay e os dois em um mesmo livro foi uma boa mistura. Vi alguns leitores reclamando que não conseguiram diferenciar um Will do outro, mas como coloquei no início da resenha, achei bem simples o sistema no livro. O homossexualismo é tratado como algo NORMAL. E eu também vejo como algo normal, apesar de parte da sociedade se recusar a encarar desta forma, mas o livro não tem foco em nenhum relacionamento homossexual, é um romance com homossexuais. Os Will Graysons dessa história não têm muita coisa em comum: eles dividem o nome e a tentativa de saber quem eles realmente são, tentar descobrir-se, entender o mundo, entender a si mesmo. Então não se restringe apenas a um relacionamento homossexual vivido na adolescência  ele é muito mais que isso. Ele fala sobre o amor e suas mais diversas formas e como ele torna a vida mais real, mais palpável e colorida. Também nos fala sobre nos arriscarmos para conseguir o que queremos que levar um não faz parte, assim como aceitar o fato de não ter dado certo, sacudir a poeira levantar e tentar mais um vez até quando as coisas derem certo. Fugindo dos estereótipos e de forma bastante natural, mas mais do que um livro sobre opção sexual, Will & Will tem música, teatro, livros, muitos gatos de Schrödinger, família, amizade, amor (de todos os tipos e formas), aceitação, arrependimento, perdão, sinceridade, mudanças, reconquistas, reencontros, escolhas, tentativas. O final do livro é bom, bastante emocionante, mas bastante impossível, do tipo de cena embebedada em água-com-açúcar que dá pra engolir porque é mesmo muito bonitinha.

                "[...] Talvez haja alguma coisa que vocês tenham medo de dizer, ou alguém que vocês temam amar, ou algum lugar aonde têm medo de ir. Vai doer. Vai doer porque é importante".

                “agora eu entendo. eu entendo. as coisas que você mais quer são aquelas que te destroem no fim”.

                “Mas com amigos, não tem nada assim. Estar em um relacionamento, isso é algo que você escolhe. Ser amigo, isso é simplesmente algo que você é.”

                “quando as coisas se quebram, não é o ato de quebrar em si que impede que elas se refaçam, é porque um pedacinho se perde - as duas bordas que restam não se encaixam, mesmo que queiram. a forma inteira mudou.”

                “é por isso que chamamos as pessoas de ex, acho – porque os caminhos que se cruzam no meio acabam se separando no fim. é muito fácil ver esse x como uma anulação. mas não é, porque não tem como anular uma coisa assim. o x é um diagrama de dois caminhos.”

                A diagramação da Galera ficou boa, com letras grandes e um espaçamento ideal para a leitura. Em minha opinião, a editora só cometeu um erro na hora de colocar “Um Nome, Um Destino” no subtítulo, pois abre brecha para deduções equivocadas. A tradução de Raquel Zampil também é muito boa (ela também traduziu ‘O Filho de Netuno’, ‘A Marca de Atena’ e ‘Floresta dos Corvos’). Tirando o título+subtítulo em português – que continuo achando tipo Seção da Tarde – só encontrei um porém na tradução, algo que me despertou curiosidade e fui procurar sobre. Não vou colocar a frase inteira porque acho que não seria legal com quem não leu ainda, então vou colocar só a parte que interessa:

"e eu te aprecio"

No original, a frase era assim:

"and i appreciate you"

Ninguém aqui no Brasil fala “eu te aprecio”. Nós falamos “eu gosto de você”. Então ao ler isso saindo da boca de um adolescente foi, no mínimo, esquisito. Já nos EUA eles estão acostumados a falar essa expressão, é comum. De verdade, não gostei de ler essa tradução literal, ainda mais porque ela acontece em um momento importante do livro. Mas não é nada que estrague o livro. Eu leio essa parte e substituo mentalmente por “eu gosto de você”.
                Acho que a capa poderia ser melhor, mas ficou bem legal. O formato/tamanho do livro é ótimo, nem enorme, nem muito pequeno, bem confortável de ler.
                Eu não vou falar que o enredo do livro é impressionantemente complexo, que ele é a perfeição de deus e todas as coisas relacionadas com isso, porque ele não é. O livro é fácil de ler – como se tivesse lendo o diário de alguém – e legal por tratar de se amar e amar os outros independente de suas diferenças, e por mostrar o desenvolvimento de seus personagens para aceitar isso.Sinto muito aos fãs de John Green, mas não achei Will e Will um trabalho com a mesma qualidade de seus antecessores. Talvez porque eu não me identifiquei com nenhum personagem. Mas vale ler por ser uma história tocante e que te faz pensar com um grande toque de humor. Vale notar as mensagens que o livro apresenta, de que amor é amor, independente da forma, e de que devemos aceitar quem somos.



Conheça as capas e Will & Will que estão ilustrando esta divertida história lá fora.



4 comentários

  1. Ficou bem interessante a sua resenha, gostei! Na verdade me interessei bastante por esse livro desde que li as primeiras resenhas dele. Acho legal ver personagens homossexuais e seus problemas e questões (que são como os dos héteros), enfim, ver o tema tratado com naturalidade é um grande atrativo no livro. Mas achei que haveria certo foco em algum relacionamento gay, não sei exatamente porque achava isso, se foi em alguma resenha que li, não sei.
    Outra coisa, também achei esse título+subtítulo com cara de sessão da tarde hahahaha. Já a capa, gostei bastante dela, simples e bonita.

    Um beijão! Livro Lab

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  2. Gostei bastante da resenha! Estou lendo esse livro agora (também gostei da resenha não ter grandes spoilers, obrigada rs) e a única coisa que discordei de você até agora é que eu achei o Will 2 MUITO chato, muito mesmo, dá quase vontade de pular as partes dele do livro, mas estou amando o Will 1 e o Tiny <3 As partes que ele aparece são os pontos altos do livro rs. Ainda não cheguei na parte que eles se encontram, aguardando ansiosamente.
    Beijo e parabéns pela resenha.

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  3. O Will 2 é realmente muito chato (Will do David Levithan). Mas o Will do John Green e o Tiny Cooper São muito legais, a Jane também. Mas dos capítulos do David não gostei de nenhum personagem. Nem Will 2, nem Maura, e bem mais ou menos do Gideon.

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  4. Os capítulos pares (do John Green) são bem mais legais que os capítulos ímpares (do David Levithan). O enredo do John é mais rico.

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