[RESENHA] Grafic Novel - Deuses Americanos. Sombras - Volume 1 - Neil Gaiman - @intrinseca

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Deuses Americanos 
Sombras - Volume 1
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
I.S.B.N.: 9788551003060
Páginas: 264
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O grande clássico de Neil Gaiman agora em quadrinhos

Mistura de road trip, fantasia e mistério, o romance Deuses americanos alçou Neil Gaiman à fama mundial e ao posto de um dos maiores escritores de sua geração. Agora, os fãs de quadrinhos e da obra-prima do autor têm mais um motivo para celebrar: chega às livrarias o primeiro volume das graphic novels inspiradas em Deuses americanos. Ao todo, serão três volumes.
Em Sombras, as cores e os traços vibrantes de P. Craig Russell e Scott Hampton nos apresentam Shadow Moon, um ex-presidiário de trinta e poucos anos que acabou de sair da prisão e descobre que sua mulher morreu em um acidente de carro. Sem lar, sem emprego e sem rumo, ele aceita trabalhar para o enigmático Wednesday e embarca em uma viagem tumultuada e reveladora por cidades inusitadas dos Estados Unidos. É nesses encontros e desencontros que o protagonista se depara com os deuses — os antigos (que chegaram ao Novo Mundo junto dos imigrantes) e os modernos (o dinheiro, a televisão, a tecnologia, as drogas) —, que estão se preparando para uma guerra que ninguém viu, mas que já começou. O motivo? O poder de não ser esquecido.
Excelente!!
Neil Gaiman. Potencialmente, um dos melhores e mais prolíficos escritores da atualidade. Suas obras, sejam no mundo literário ou no mundo dos quadrinhos, tem sua importância na sociedade da Cultura Pop, quer você queira ou não. Eis que uma de suas obras mais bem feitas vira uma série de TV no canal Starz, distribuída internacionalmente pelo serviço Amazon Prime Video e ganha o mundo.

Devido ao sucesso da série, esta obra ganha sua versão em quadrinhos, feita por grandes nomes da nona arte.

O quadrinho conta a história de Shadow, um homem negro que está na cadeia pagando por um crime que o mesmo havia cometido. Porém, o mesmo está apenas a 3 dias de sua soltura, depois de ter passado 3 anos no xilindró. Shadow já tem a vida planeja depois do fim de sua pena: vai voltar para sua querida esposa Laura e retomar seu cargo como instrutor de academia junto de seu parceiro Robbie.

Shadow volta para a sua cidade, porém, descobre no caminho, dito pelo misterioso Sr. Wednesday, que sua amada esposa e seu amigo haviam morrido num acidente de carro. Inicialmente, Shadow desconfia e continua sua jornada, mas logo tudo o que Wednesday havia dito se confirma. O mesmo já havia proposto á Shadow que se tornasse seu guarda-costas. Ainda meio exitante, Shadow aceita e ambos agora seguem viagem rumo ao desconhecido.

O roteiro segue sem tirar nem por tudo o que é contado no livro. O ritmo é interessante, sempre instigante, misterioso, não revelando tudo de mão beijada ao leitor. Uma coisa invejável. A maior parte da história se desenvolve como um road movie, ou seja, um filme onde você verá os personagens a maior parte do tempo viajando de um lugar para outro e, quando os mesmos pararem em um determinado lugar, algo de importante irá acontecer. Haverá também, em menor grau de aparição, confrontamentos com deuses. Mas não esperem cenas grandiosas de ação. Serão embates na questão psicológica, onde caberá ao leitor preencher as lacunas.

A arte é bem feita. Os traços, mesmo sendo realistas, possuem um certo abstracionismo. Isso é reparável já no primeiro quadro. Creio que a intenção foi de dar um aspecto mais sujo, mais poluído, mais urbano a narrativa, visto que várias situações chegam a ser bastante intensas. Isso é visto principalmente quando Glenn Fabry está com a batuta. Seu traço, mesmo que reproduzindo a realidade com toda a gama de detalhes possíveis e imagináveis, consegue produzir quadros sujos porém dinâmicos.

A paleta de cores é bem focada em tons bem soturnos como preto, cinza, alguns tons de azul bem desbotados, verdes quase acinzentados na maior parte do tempo. Porém, há momentos onde há uma extravagância de cores, formas surrealistas, quase oníricas.

Algo a ser destacado são os personagens. Todos possuem uma história rica, bem desenvolvida e um certo ar de mistério. O maior destaque vai para Wednesday, que pinta e borda como bem quer, fazendo Shadow de gato e sapato, sempre o fazendo passar por situações um tanto desagradáveis, como a aposta de sua vida contra um açougueiro russo. Para o leitor mais experiente, Shadow passa a sensação de ser apenas um observador, já que o mesmo quase não se impõe perante as situações que lhes são apresentadas, aceitando o tal emprego de boa, sem questionar quais são as reais intenções de Wednesday. Laura, mesmo estando morta, aparece durante as noites querendo que Shadow a ajude a voltar ao seu antigo eu.

Mad Sweeney é um leprechaun completamente inesperado. Geralmente, os leprechauns são representados como baixinhos, vestindo roupas verdes, sempre usando trevos de quatro folhas. Porém, o mesmo é retratado como um redneck (caipira) largadão, alto, ruivo, sempre disposto a entrar numa briga. Tanto que o mesmo já briga com Shadow assim que se encontram. Beberrão de marca maior, poderia ser tido como escória. Porém, acaba sendo bastante carismático.

Outro elemento a ser pontuado são as rimas visuais: Jacal seria a representação divina do deus egípcio Anúbis, o Deus da Morte. E o mesmo trabalha em uma funerária. O local onde ele Ibis se instalam é chamado Quai-rou (uma referência á capital egípcia, Cairo). O trio de irmãs Zorya Utrennyaya, Vechernyaya e Polunochnaya são conhecidas por serem as guardiãs do cão do juízo final. Enquanto duas são mais ativas durante o dia, Polunochnaya é mais ativa durante a madrugada, já que seus nomes em russo refletem essa qualidades. Utrennaya seria a Estrela da Manhã, Verchernyaya seria a Estrela da Noite e a última seria a Estrela da Meia-Noite.

Mas não pense que é apenas de rimas visuais que a história é feita. Há também críticas ao consumo desenfreado, a futilidade de programas de TV que nada tem a acrescentar na vida, uma certa alfinetada ao fácil acesso ao sexo e como o ser humano (em geral) tem pouca paciência com o efêmero. No caso da TV, uma das divindades assume a identidade de Lucy Ricardo, personagem interpretada por Lucille Ball da famosa série I Love Lucy, com direito a mesma até mostrando os peitos para Shadow, numa forma de confrontar quem quiser que esteja ao lados dos antigos deuses. Simplesmente genial.

É possível se notar referência a Matrix. Em um dado momento, Shadow acaba indo parar na limusine do deus Mídia. Ele é calculista, frio e está disposto a não deixar Shadow em paz, dizendo que o mesmo pode ser substituído por 1 e 0 com um simples piscar de olhos, ressaltando que, se você não é está destacado em algo, você tão substituível quanto um grão de areia no meio do deserto.

Se você quer só saber de artes incríveis e embasbacantes, esta obra não é para você. A melhor parte da história está contida nos diálogos. São neles que se encontram as informações necessárias para que você entenda o que está se passando, portanto, atenção redobrada ao ler os diálogos. Se você quer arte de cair o queixo, recomendo Os Maiores Super-Heróis do Mundo, desenhada por Alex Ross. Nesta história, cada quadro é uma pintura que você quer emoldurar.

Deuses Americanos Volume 1 é o prelúdio de algo épico. Parece mais um longo road trip com vários intervalos a fim de contar histórias interessantes sobre um passado que não voltará. É bem contido e sabe prender a atenção do espectador, mesmo assim, neste primeiro volume, senti falta de alguns momentos icônicos. Mesmo assim, vale a pena conferir se você gosta de mitologia ou História.









Essa resenha é cortesia do nosso novo colunista especialista em HQs Rafael Da Fonte de Hires.
Rafa é formando em Cinema e também atua como crítico de cinema.

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