[RESENHA] CORALINE - NEIL GAIMAN - EDITORA INTRÍNSECA

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

 


CORALINE
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 224

Clássico de Neil Gaiman que mistura terror e conto de fadas ganha edição especial

Certas portas não devem ser abertas. E Coraline descobre isso pouco tempo depois de chegar com os pais à sua nova casa, um apartamento em um casarão antigo ocupado por vizinhos excêntricos e envolto por uma névoa insistente, um mundo de estranhezas e magia, o tipo de universo que apenas Neil Gaiman pode criar.

Ao abrir uma porta misteriosa na sala de casa, a menina se depara com um lugar macabro e fascinante. Ali, naquele outro mundo, seus outros pais são criaturas muito pálidas, com botões negros no lugar dos olhos, sempre dispostos a lhe dar atenção, fazer suas comidas preferidas e mostrar os brinquedos mais divertidos. Coraline enfim se sente... em casa. Mas essa sensação logo desaparece, quando ela descobre que o lugar guarda mistérios e perigos, e a menina se dá conta de que voltar para sua verdadeira casa vai ser muito mais difícil ― e assustador ― do que imaginava.

Publicado pela primeira vez em 2002, Coraline foi o primeiro livro de Neil Gaiman para o público infantojuvenil e se tornou uma das obras mais emblemáticas do escritor. Repleta de elementos ao mesmo tempo sombrios e lúdicos, a história conquistou crianças e adultos em todo o mundo e, em 2009, ganhou as telas de cinema em uma animação dirigida por Henry Selick, de O estranho mundo de Jack. Nesta edição especial em capa dura, com introdução do autor e projeto gráfico exclusivo, coube ao renomado ilustrador Chris Riddell dar vida ao universo mágico e aterrorizante criado por Neil Gaiman.



Esta é uma crítica sobre a Coraline. Ela é bem intensa, nada infantil. Nunca antes vi alguém usar botões pra assustar uma geração inteira até chegar Coraline. Se amou aquela animação, aqui o Gaiman explora ainda mais, tudo visto lá em 2009 em Coraline.

Sim, se Coraline tem música pra começar a crítica, eu também tenho pra começar a minha.

Bom, creio que a maioria já deve estar pelo menos com consciência de que existe uma versão animada de Coraline. Caso não, sugiro fazer uma busca na internet Mas, só pelo simples descargo de consciência, caso tenha passado os últimos quase 20 anos sem saber da existência deste livro, acho que agora está na hora de você conhecer.

Coraline Jones e seus pais amorosos se mudam para uma antiga casa que foi dividida em apartamentos. Os outros inquilinos incluem a Srta. Spink e a Srta. Forcible, duas idosas aposentadas do palco e o Sr. Bobo, inicialmente referido como "o velho louco lá em cima", que afirma estar treinando um circo de ratos.

O apartamento ao lado do Coraline está desocupado, e uma pequena porta que os liga é revelada como sendo uma parede de tijolos quando aberta.

Coraline vai visitar seus novos vizinhos. O Sr. Bobo repassa a ela uma mensagem de seus ratos: "Não entre pela porta." Coraline também toma chá com as Srtas. Spink e Forcible, e a Srta. Spink espia perigo no futuro de Coraline depois de ler suas folhas de chá.

Apesar desses avisos, Coraline decide abrir a porta quando ela está em casa sozinha. Desta vez, ela descobre que a parede de tijolos atrás da porta se foi. Em seu lugar há um longo corredor que leva a um apartamento idêntico ao seu, exceto habitado pela "Outra Mãe" e "Outro Pai", que têm botões pretos no lugar dos olhos. A Outra Mãe é notavelmente mais alta e mais magra que sua mãe real. Seu cabelo preto parece se mover sozinha, sua pele é branca de papel, e suas unhas são longas e vermelhas.

Inicialmente, Coraline acha o "Outro Mundo" mais interessante do que o seu: a Outra Mãe cozinha as comidas que ela realmente gosta, ambos os outros pais prestam mais atenção a ela, sua caixa de brinquedos está cheia de brinquedos animados que podem se mover e voar, a Outra Srtas. Spink e Forcible realizam um ato interminável em seu apartamento, e o Outro Sr. Bobo tem um circo de ratos.

Ela até descobre que o gato preto selvagem que vaga pela casa no mundo real pode falar. O gato se identifica como o mesmo gato que vive no mundo real e possui a capacidade de viajar entre os dois mundos. Embora intencionalmente rude e inútil para a maior parte da conversa, ela brevemente a elogia por trazer "proteção", e depois desaparece.

Depois que Coraline retorna à cópia de seu apartamento, a Outra Mãe oferece a Coraline a oportunidade de ficar no Outro Mundo para sempre, mas para isso, Coraline deve permitir que botões sejam costurados em seus olhos. Coraline fica horrorizada e retorna pela porta de sua casa.

O texto é muito inteligente e dialoga perfeitamente com algo que a maioria das crianças sofre: adultos (quase) não acreditam em suas palavras ou (quase) não dão a atenção que elas pedem.

Isso é algo que, invariavelmente vai acontecer, já que adultos precisam trabalhar, ganhar dinheiro para pagar contas, fazer tarefas domésticas, além de terem em mente que crianças tem uma imaginação muito fertil e fantasiam demais sobre alguns temas. Eu sei que isso já se tornou corriqueiro e foi abordado das mais diversas formas em milhares de obras infantis ou infanto-juvenis.

Mas em Coraline, a coisa tem uma outra abordagem. Transporta o leitor para aquele mundo onde tudo parece uma bolha perfeita onde tudo o que ela fala é relevante, ninguém a menospreza/ignora, tudo é moldado para agradar a criança e fazer com que o Outro Mundo pareça ser agradável e nunca haja qualquer tipo de irritação, por menor que seja. Mas, claro, isso vem com o preço de não ver mais o que acontece.

A tal leitura de que os olhos são a janela da alma é presente por demais, visto que ao não vermos nada, não sabemos quais são as verdadeiras intenções das pessoas. Existe também um subtexto do gato preto. Esse símbolo continua sendo até hoje como algo mau, perigo se aproxima ou mesmo companheiro de vilões, mas Gaiman decidiu ressignificar esse símbolo para algo menos ameaçador, mesmo o gato sendo um pouco rude.

Existe também a questão do amadurecimento, numa clara mensagem do estilo “não é porque seus pais não demonstram tanto interesse em você ou mesmo não te deixam fazer aquilo que você quer, que eles não se importam com você. Amor é mostrado de outras formas, não necessariamente da maneira tradicional.”.

Creio que a frase que mais se aplica a obra é “não se deixe enganar pelas aparências”, podendo até fazer uma espécie de referência a A Bela e a Fera. 

O 3º ato do livro é bem impactante e aqui não terá spoilers, mas creio que na minha avaliação apenas crianças maiores de 12 anos devem ler este livro, visto que esta parte pode deixar uma imagem bem atormentadora na mente das crianças, algo digno das obras dos estúdios Disney dos anos 40 e 50. 

Coraline é bem intenso, divertido e um livro muito interessante e continua tão atual quanto em 2002. Recomendo fazer uma sessão dupla: ler o livro e assim que o mesmo acabar, ver o filme, pois certamente será uma experiência bem completa.






Essa resenha é cortesia do nosso novo colunista especialista em HQs Rafael Da Fonte de Hires.
Rafa é formando em Cinema e também atua como crítico de cinema.

0 comentários

Postar um comentário

Deixe seu Comentário!