[Resenha]Mataram Marielle: Como o Assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes Escancarou o Submundo do Crime Carioca

domingo, 24 de janeiro de 2021

 

Mataram Marielle
Como o Assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes Escancarou o Submundo do Crime Carioca 
Autores: Chico Otavio e Vera Araújo
Editora: Instrínseca
Páginas: 224

Em reportagem de tirar o fôlego, autores revelam os bastidores das investigações do caso que ainda assombra o Brasil

Na noite de 14 de março de 2018, a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram mortos a tiros no Estácio, zona central da cidade do Rio de Janeiro. Liderança nascida e criada na favela, a quinta vereadora com mais votos no pleito em que foi eleita, Marielle era ao mesmo tempo assertiva e carismática em seus posicionamentos, fosse na defesa de moradores de áreas dominadas por milícias, fosse nas reivindicações ligadas às comunidades LGBTQIA+. Seu assassinato se tornou emblemático não somente por ser um claro ataque à democracia e às bandeiras defendidas pela parlamentar, mas também por ter marcado um novo patamar de atuação da criminalidade na cidade.

Mesmo sem dar uma resposta definitiva ao caso, as diversas linhas de investigação tomaram as manchetes dos jornais, foram amplamente discutidas nas redes sociais e colocaram holofotes sobre a estrutura do crime organizado carioca, suas áreas de atuação e práticas. Em meio aos debates sobre a federalização das investigações, o legado político de Marielle e a pressão da opinião pública por respostas, tornou-se cada vez mais clara a onipresença das organizações criminosas na cidade, suas redes internas e elos externos.

Jornalistas investigativos dedicados ao caso Marielle e Anderson desde o início, Chico Otavio e Vera Araújo mostram como o caso foi determinante para escancarar a atuação do crime na capital fluminense. Repórteres experientes e testemunhas de longa data de várias investigações policiais na capital, Chico e Vera esmiuçaram a rede que movimenta o submundo carioca e seus múltiplos agentes. Traficantes, milicianos, torturadores egressos dos porões da ditadura, ex-policiais altamente treinados assumindo o papel de assassinos de aluguel, bicheiros e as disputas travadas entre eles estão por toda parte e povoam as páginas de Mataram Marielle.



Parece que foi ontem que a vereadora Marielle Franco foi assassinada brutalmente, ao lado de Anderson Gomes. Se passaram mais de 1000 dias desde o ocorrido e ainda pouco se avançou nesse meio tempo.

Culpados foram apontados, inquéritos foram instaurados, mas as respostas continuam tão dispersas desde o primeiro dia. 
Manchetes foram feitas nos mais diversos portais, passeatas foram realizadas, séries documentais foram produzidas, mas a resposta está longe de chegar. Porém, um livro escrito pela dupla de jornalistas investigativos do O Globo Chico Otávio e Vera Araújo, pode ter apontado alguns caminhos por onde a investigação deverá seguir. 

Ao julgar pelo primeiro olhar, o leitor mais desavisado poderá questionar: “mas se ainda não há culpados, porque lançar agora?” Eu tentarei dar uma justificativa.

O trabalho de investigação policial é bem lento, visto que são necessárias diversas medidas e recursos para a investigação e também a questão de insuficiência de provas ou mesmo excesso que podem ou não apontar um caminho ou mesmo apontar diversos caminhos e, em cada ramificação, haver falta de detalhes concisos. 

Você deve estar perguntando: “isso não virá a desvalidar o livro quando novas provas forem apontadas?” Existem três afirmações: sim, não e talvez. Sim, pois vai parecer datado e por ainda se tratar de um caso não solucionado, isso pode afetar. Talvez, pois pode ser que não se encontrem mais provas ou que a Justiça queira arquivar o caso, pois existem diversas instâncias que podem atrapalhar o andamento. Não, pois a família de Marielle e os simpáticos a sua luta, sempre estarão cobrando a Justiça e a polícia por novas atualizações. E visto que estamos na era das redes sociais onde com apenas uma hashtag, milhares de pessoas ganham vozes, esse caso certamente não será esquecido tão facilmente. 

Um dos méritos do livro é como se apresenta o submundo do crime na cidade maravilhosa. Quem não é do Rio, não está acostumado e o mesmo apresenta uma visão bem mais intensa e escusa, praticamente arraigado na vida cotidiana. 

Mataram Marielle fala da realidade ainda comum na vida dos cariocas. Mesmo usando o assassinato de Marielle e Anderson, o texto apresenta muito mais. Fala de como milicianos e políticos estão de mãos juntas. Dá várias indiretas ao presidente Jair Bolsonaro, que também fora apurado que tem suas ligações com os suspeitos. Mesmo não apontando uma resposta concreta, vale a pena ler para entender o quão corrompido está a realidade do Rio.






Essa resenha é cortesia do nosso novo colunista especialista em HQs Rafael Da Fonte de Hires.
Rafa é formando em Cinema e também atua como crítico de cinema.

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