Family Tree - volume 1: Nascimento - Jeff Lemire (Autor) - Intrínseca

quarta-feira, 16 de junho de 2021

 

Family Tree
Volume 1: Nascimento
Autor: Jeff Lemire
Editora: Intrínseca
Páginas: 96

Na nova HQ de Jeff Lemire, criador da série Black Hammer, o fim do mundo chegou ― e é totalmente diferente do que imaginávamos

Não espere por meteoros, pragas ou guerras. No universo imaginado pelos aclamados quadrinistas Jeff Lemire e Phil Hester, o fim do mundo tem início num dia qualquer, numa cidade qualquer, quando uma menina de oito anos começa a se transformar numa... árvore.

Para salvá-la antes que seja tarde demais, sua mãe, seu irmão e seu excêntrico avô embarcam numa jornada bizarra e perigosa em busca da cura e de respostas, deparando-se com diversas ameaças pelo caminho, como mercenários assassinos e adeptos de cultos fanáticos, todos dispostos a destruir a menina ou usarem-na para benefício próprio. A cada passo longe de casa, mais a menina-árvore se vê perto de completar essa terrível transformação, correndo o risco de perder para sempre sua humanidade. Ou talvez tornar-se o que nasceu para ser.

Sombrio e impactante, este primeiro volume de Family Tree reúne os quatros fascículos iniciais da série, uma visão única do subgênero conhecido como body horror, ou horror corporal. Mistério, ação e terror se combinam nessa distopia sobrenatural sobre laços familiares indestrutíveis e a força apocalíptica da natureza.




Família. Existem ditados que versam sobre família sendo algo complicado como: “Filhos são que nem puns. Só aguentamos os nossos.”

“A família dos outros sempre parece ser melhor que a nossa.”

“Os desafios entre os familiares nos preparam para a sociedade, porém, os conflitos internos cerceiam a liberdade.”

Enfim, vários ditados. Bom, que o Jeff Lemire sabe trabalhar relações humanas, isso você já sabe. Tanto que uma das maiores qualidades são os diálogos e as relações em palpáveis entre personagens.

E por isso, ele lançou recente um quadrinho que vai abordar dificuldades familiares e segredos dentro das famílias.

Já no início, somos ditos que o mundo inteiro ruiu. Porém, acabamos vendo um flashback de como tudo começou. Nesse flashback, vemos Loretta, mãe solteira que cria seus dois filhos Meg e Josh.

Porém, as coisas começam a ficar estranhas quando Meg nota que seus braços estão virando galhos e seu corpo está assumindo um formato de árvore.

Em um determinado ponto, Judd, o pai de Loretta aparece para ajudá-los. E agora, os 3 estão lidando com um grupo de pessoas que querem matar Meg antes dela virar uma árvore.

Você podem pensar: “Cara, isso é a coisa mais absurda e imbecil que eu já ouvi. Não tem como uma ideia de jerico dessas ser boa!”

Porém, meus amigos, ela é boa. Lemire, mesmo que tivesse decepcionado os leitores lá no fim de Black Hammer, ainda sabe trabalhar os elementos humanos de uma relação.

Royal City e Condado de Essex são dois grandes exemplos de quadrinhos escritos por ele que sabem como construir personagens interessantes.

É possível ver que aquilo que Royal City ainda não explicitou, aqui é mais direto ao ponto.

Loretta, ao ter ficar sem Darcy, seu marido que sumiu há anos com seu pai, ficou abalada e desnorteada. E os desenhos ajudam ver que ela suportou o inferno na Terra.
Porém, enganam-se todos se acham que Judd é frio e calculista. Mesmo que Judd não saiba demonstrar, ele se importa.

Sua aparência casca grossa (perdão do trocadilho, vou ali no quintal criar raízes e já volto) é necessária, pois fez de um tudo para ajudar Darcy a voltar ao “normal” e vemos que ele suportou de tudo um pouco.

Josh é o típico irmão implicante. Quem já teve irmão, sabe que ou mais velho te irrita ou o mais novo é quem irrita. Infelizmente, ele não tem muita profundidade e fica sempre em segundo plano. Até quando o avô lhe dá uma arma, a importância do evento é suprimida. Mas quem rouba o show pra si é Meg. Inicialmente, parece só mais uma garotinha comum, porém quando seu corpo muda e a aparência de árvore vai se revelando, é algo fantástico e a garota fica cada vez mais traumatizada.

Além disso, há momentos em que ela consegue falar com seu pai que são bem acalentadores. Os desenhos são incríveis. Tanto que é possível notar uma certa semelhança com o traço de Mike Mignola, na questão de usar linhas retas para dar uma sensação de estranhamento e textura meio irregular, pois é possível ver isso na maior criação do artista: Hellboy.

Alguns até arriscam ir mais longe e comparar com Wytches, do Scott Snyder e Jock, Os Garotos Perdidos e A Morte Solitária de Jordy Verrill, uma das histórias de Creepshow. Consigo ver a parte de Jordy Verrill, onde o tal fazendeiro que tocou num asteróide que lentamente está se transformando em planta e pelo uso do body horror.

O body horror (horror corporal) se dá pela transformação acontecer no corpo e lentamente o transformar em algo asqueroso, repulsivo. Um dos melhores exemplos é A Mosca, remake dirigido pelo mestre do subgênero David Cronenberg, onde um cientista após utilizar seu experimento, tem seu DNA recombinado com o de uma mosca.

Wytches também é possível identificar, pois o traço é sujo e uma mulher surge de dentro de uma árvore e que a transformação dela é algo hereditário, porém sem a mesma necessidade de fazer algo ultra elaborado e num clima até lisérgico como na obra de Snyder.

E o filme Os Garotos Perdidos pode ter relação, pois eles encaram uma road trip até chegar em alguém que os ajude a entender o que se passa com a filha.

Family Tree Vol. 1 é inegável ter boas ideias e uma execução bacana, porém o que vai determinar se a série irá manter-se interessante são os próximos capítulos, explicando os motivos da tal transformação e o tal grupo que os tentou assassinar.






Essa resenha é cortesia do nosso novo colunista especialista em HQs Rafael Da Fonte de Hires.
Rafa é formando em Cinema e também atua como crítico de cinema.

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